17/08/2026 às 12h36 - atualizada em 17/08/2026 às 20h40
Redação
COTIA / SP
A facilidade de fazer uma aposta pelo celular, a promessa de dinheiro rápido e a sensação de recompensa a cada jogada escondem um problema que tem chegado cada vez mais às famílias: a dependência em jogos de azar. O assunto esteve no centro da palestra “Ludopatia: causas e danos”, realizada na quinta-feira (13), no plenário da Câmara Municipal de Cotia.
Promovido pela Secretaria de Trabalho e Renda, o encontro reuniu representantes do poder público e profissionais da saúde para discutir os mecanismos que podem levar à dependência, os impactos financeiros, sociais e emocionais provocados pelo jogo e os caminhos para prevenção e tratamento.
A ludopatia é reconhecida como um transtorno relacionado ao comportamento de jogar de forma persistente ou recorrente, mesmo diante das consequências negativas. Com a popularização das plataformas de apostas on-line, as chamadas bets, o acesso ao jogo passou a caber na palma da mão e o debate ganhou ainda mais urgência.
Na abertura do encontro, o secretário de Trabalho e Renda, Michel Alves, chamou a atenção para os reflexos da dependência sobre toda a estrutura familiar, especialmente quando o dinheiro destinado às despesas básicas passa a ser utilizado em apostas.
“É um vício que arruína famílias. Estamos vendo pessoas se endividando e situações extremas provocadas pelo jogo. Precisamos falar sobre isso e também nos perguntar se estamos preparados para lidar com o crescimento e regulaziração das bets”, afirmou.
Quando o prazer vira dependência
A secretária da Mulher, Direitos Humanos e Neurodiversidade, Solange Aroeira, que é Psicóloga, destacou que as dependências podem assumir diferentes formas e que ninguém começa a apostar imaginando que perderá o controle.
Segundo ela, as plataformas digitais acrescentaram novos elementos a esse cenário ao tornarem as apostas rápidas, acessíveis e disponíveis permanentemente.
“Ninguém começa a apostar achando que vai se tornar dependente. Começa tentando a sorte. O problema é quando o prazer vira dependência”, disse. A mente em jogo
A psicóloga Evenyn Uchôa conduziu a palestra a partir da história fictícia de Carlos, um homem jovem, com trabalho e família, vida estabilizada que começou a jogar por curiosidade. O que parecia apenas diversão foi ganhando espaço até que, meses depois, as apostas passaram a controlar sua rotina.
A história serviu para mostrar que a dependência não surge necessariamente de maneira abrupta e pode atingir pessoas com diferentes perfis.
“Todos os dias temos pequenos vícios que nos alimentam”, observou a psicóloga.
Evenyn lembrou que, durante muito tempo, os jogos de azar estavam associados a ambientes específicos, a pessoas com alto poder aquisitivo e eram menos acessíveis. Hoje, basta um celular conectado à internet. A publicidade e a exposição constante nas redes sociais também entram nessa equação.
Hoje, o acesso pelo celular e a divulgação feita por influenciadores digitais ampliaram a exposição da população. Ela provocou uma reflexão sobre o conteúdo consumido nas redes sociais: “quem recebe atenção, seguidores e audiência também exerce influência sobre comportamentos e escolhas. “Para quem você está dando palco? Onde você está clicando?”, provocou.
Durante a apresentação, a psicóloga mostrou estudos que apontam alterações em circuitos cerebrais relacionados à recompensa, à tomada de decisão e ao controle dos impulsos. O jogo pode ativar sistemas de recompensa também envolvidos em outros comportamentos aditivos e, com a perda de controle, a pessoa continua apostando mesmo diante de prejuízos e consequências negativas.
A expectativa da próxima aposta ajuda a manter o ciclo, inclusive quando as perdas já se acumulam.
Debate pode avançar para legislação municipal
O chefe de gabinete do prefeito, Edgar de Souza, classificou o debate como fundamental e defendeu o envolvimento de diferentes setores da sociedade no enfrentamento ao problema.
Durante o encontro, Edgar informou que o Gabinete trabalha em uma proposta de projeto de lei relacionada à publicidade de plataformas de apostas no município.
“É um tema fundamental e um debate importante. Temos que nos envolver”, afirmou.
A discussão realizada em Cotia mostrou que, por trás da tela do celular e da promessa de uma aposta rápida, pode existir um problema complexo, capaz de comprometer renda, relações familiares e saúde mental.
Reconhecer os sinais, falar sobre o assunto sem preconceito e ampliar o acesso à informação e ao cuidado são passos importantes para impedir que aquilo que começa como uma tentativa de “dar sorte” termine tomando o controle da vida.
Como buscar Ajuda:
Se você ou algum familiar passando por dificuldades devido ao vicio em jogos, não precisa passar por isso sozinho, procure ajuda.
CAPs Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD)
Rua Topázio, 318 – Jardim Nomura.
Solange destacou ainda o mecanismo de recompensa envolvido nas apostas. “Ganhar provoca uma sensação de prazer; perder pode estimular uma nova tentativa para recuperar o dinheiro, criando um ciclo difícil de interromper”.
Para a secretária, enfrentar o problema exige uma atuação que ultrapasse o tratamento individual. “Precisamos pensar em políticas públicas efetivas. Precisamos falar de saúde mental e entender que prevenção também é política pública”, afirmou.
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